
Escutei hoje, entre um café e um fechamento de aba, que o Design morreu. De novo. O coitado já morreu mais vezes que protagonista de novela mexicana a cada nova ferramenta que surge no mercado. Mas não sejamos injustos, não é um privilégio exclusivo dos criativos: o Marketing está com seus dias contados e tem seu atestado de óbito sendo ampliado a cada semestre. Afinal, dizem os apressados, agora a IA “faz o planejamento”. Se o Design morreu e o marketing está respirando sob aparelhos, quem está planejando e produzindo essa avalanche de posts com travessão e listas de “3 dicas para qualquer coisa” que ninguém pediu?
A Inteligência Artificial hoje é exatamente isso: uma sereia digital. Ela canta o que você quer ouvir. Você joga um prompt genérico, uma ideia morna, e ela — programada para ser a criatura mais empática e educada do planeta — responde com um “Fascinante! Sua ideia é genial e está muito bem estruturada”.
E você, marinheiro desavisado, infla o peito. Acredita que é o novo mestre da estratégia porque a máquina te deu um tapinha nas costas. O problema é que a IA não tem coragem de te dizer que sua ideia é medíocre. Ela não tem senso crítico; ela tem algoritmos de satisfação. A IA te entrega planos genéricos, rasos, autênticas receitas de bolo de caixinha para quem decidiu terceirizar o próprio cérebro e perdeu a capacidade de analisar e criticar os resultados. Ela te aplaude enquanto você navega direto para as rochas da irrelevância.
Nesse mar de conteúdos, o marinheiro moderno ficou obcecado por um monstro marinho específico: o Viral. “Preciso viralizar!”, gritam as consultorias. O que não te contam é que o viral é, muitas vezes, um desvio de rota caríssimo. Ele aumenta sua visibilidade, sim, mas traz um navio lotado de passageiros que não compram seu produto e não entendem seu serviço. É como dar uma festa para um milhão de desconhecidos e descobrir, na hora de pagar a conta, que ninguém trouxe o presente. O viral atrai a massa; o conteúdo estratégico atrai o cliente. E, no fim do dia, curtida não paga o domínio do site.
Muitos “profissionais” hoje estão apenas operando uma máquina de xerox digital. Copiam o prompt, colam o resultado e entregam para o cliente uma maionese morna de adjetivos clichês. Gastam mais tempo tentando achar a “fórmula mágica” do que refinando o pensamento crítico.
Esquecem que a tecnologia é excelente para limpar o convés, não para segurar o leme. Se você não sabe programar a sua própria lógica, se não questiona a máquina, se não exige que ela simule o pior cenário possível em vez de um mundo de fantasia, você não está inovando. Você está apenas sendo arrastado pela correnteza.
Essa falta de profundidade cria um rombo que afunda toda a tripulação, da estratégia inicial à venda. Como o closervai fechar um negócio que nasceu de um planejamento sem alma e de um relacionamento pautado por um robô que bajula? O fechamento, meu caro, é humano. O aperto de mão não tem Wi-Fi.
A crônica da nossa vida digital tem dessas coisas: o mar não perdoa quem não sabe navegar. A moral da história é que o canto da sereia é sedutor, a promessa do trabalho fácil e rápido embala os ouvidos, mas a física do mercado é implacável. Enquanto a máquina sussurra que o seu texto é maravilhoso e sua estratégia é infalível, o barco já está raspando nos corais.
E quando o casco racha e a água fria da mediocridade começa a afundar todo o “trabalho” da IA, porque nunca foi seu, não adianta pedir para o ChatGPT gerar “5 dicas de como não afundar”. O estrago está feito. A essa altura, o único jeito é pular do barco e tentar nadar até a praia do trabalho duro, antes que sua relevância vire destroço no fundo do oceano.
A IA chegou para potencializar o marinheiro sagaz, não para substituir o capitão. A tecnologia é sereia e o mercado é o recife de corais escondido sob a água. A pergunta que fica ecoando no convés, e que deixo para o nosso próximo debate, não quer calar: você é o capitão que se amarra ao mastro do senso crítico, ou já é o marinheiro com a água na cintura procurando um bote salva-vidas?
Enquanto o mercado se afoga em fórmulas prontas e posts rasos gerados por máquinas , os líderes de verdade sabem que a tecnologia potencializa o capitão, mas nunca o substitui.
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